Olhando-me profundamente

com seus grandes olhos tristes,

timidamente sorriu...

Um sorriso agonizante

trôpego, morno, ofegante

de quem só sorri porque...

não tem mais o que fazer.

Senti naquele momento

saudade perdida no tempo

de uma infância que eu vivi.

De olhos grandes também...

agonizante também...

morno e ofegante também...

e timidamente sofri.

Naquele menino triste

recoberto de pobreza

que tanto esperava de mim

eu pude ver com certeza

o que deixei de fazer

o que depressa esqueci.

Máscara cruel da fome

impossibilidade de ser

por não ser ou por não ter

ou simplesmente por ser.

E foi então que eu senti

bem lá no fundo de mim

uma pergunta a bailar:

    - Como é que pode, meu Deus,

    alguém ter na sua frente

    esse tiquinho de gente,

    e uma moeda negar?!...

 

SCRPardo, 18/04/1985

 

 

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