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Um
dia ele entrou na nossa vida pela primeira vez, e
efusivamente o cumprimentamos: bom dia, amor!
Era
um sentimento desconhecido e muito almejado por nós.
Tinha, como tudo que é novo, cheiro bom,
gosto bom, sensação boa.
Achamos
que metade dos nossos problemas estavam resolvidos,
nem de longe desconfiando, que essa metade se referia
aos problemas que estavam começando.
Tentamos
nos adaptar a ele, e ao percebermos que não
conseguíamos, tentamos adaptá-lo a
nós, e passamos a metade da vida nessa frustrada
tentativa que um dia se transformou em conformismo
para alguns, desilusão para outros, acomodação
para outros mais, e simplesmente derrota, para uma
minoria.
Os
filhos foram crescendo, tornando-se independentes
e com isso, libertando também nossos sentimentos
represados, entre eles, o famigerado... amor!
Durante
algum tempo, tentamos ignorá-lo, dar-lhe
as costas quando ele nos cutucava o coração
exigindo explicações.
Haviam
questões práticas a serem consideradas,
e ele não tinha o direito de nos exigir nada
mais que o seu lugar num sonho bonito, de outono,
quem sabe...
Mas
o outono chegou.
E
novamente nos dirigimos a ele, desta vez como
o cidadão que se dirige ao gerente do banco,
com a hipoteca vencida.
Vestimos
a nossa melhor roupa, uma gotinha de perfume aqui,
um relógio que nos foi deixado pelo nosso
avô, que nem sabíamos se ia funcionar
até a hora do atendimento, mas que causava
boa impressão. Uma mexida estratégica
nos cabelos, para deixá-los com aparência
de quem não está preocupado. E lá
fomos nós...
Boa
tarde amor!!!
Ele
mal resmunga a resposta para nós, mas tínhamos
argumentos, tínhamos justificativas para tudo
na ponta da língua, doenças de família,
esposas depressivas, maridos safenados, enfim, o
prazo foi dado.
De
má vontade, a contra gosto, considerando
apenas a nossa inadimplência insolucionável
no momento, o amor nos concedeu mais alguns poucos
anos, para que ele fosse incluído em nossa
vida, ou sairíamos dela, como disse o poeta,
com a página em branco.
Mas
o poeta pensa que é fácil, porque
ele não vive, ele só escreve...
Aí,
nós saímos desesperados na tentativa
de recuperar o tempo perdido, e acabamos metendo
os pés pelas mãos, esquecendo-nos
dos requisitos básicos para um relacionamento
profícuo.
E
velhos praticamente caquéticos acabaram passeando
de braços dados com moçoilas viçosas
e extremamente saudáveis, que estavam interessadíssimas
nos corações deles e no amor que eles
tinham para dar, aquele que popularmente se denomina
“Credicard”, “Visa”, etc .
E
as mulheres, coitadas, acabaram se misturando aos
motoristas e guarda-costas, quando tinham costas
para serem guardadas, até que a prática
lhes mostrou, triste e concretamente, que o caminho
não era bem esse, e elas ficaram girando como
baratas pulverizadas com “Baygon”, sem chegar
a lugar algum.
E
o inverno se aproximava ameaçador...
Houve
os que retornaram à igreja, achando que lá
estariam os viúvos disponíveis. Acabaram
tomando gosto pela reza, e se esquecendo do objetivo
inicial. Quando perceberam o esquecimento, entraram
para os grupos de terceira idade, mesmo estando
já na quarta ou quinta, na tentativa alucinada
de recuperar o tempo perdido.
E
houve os que se fecharam em casa e se atiraram nas
salas de bate papo da Internet, como se fossem elas,
a única escapatória.
Mas
como lá, os homens sempre têm 1,78m
e 78 kg, e as mulheres sempre l,69 e 58 kg...
o “caldo entornou”. Não há ninguém
compatível, ninguém passivo de um
convite ou de ser convidado.
E
então, tantos anos depois, muitas vezes descobrimos
inconsoláveis, que não poderíamos
chegar diante do amor e lhe dizer: Boa noite! Porque
a pessoa que sempre amamos, por quem nutrimos a
vida toda um profundo respeito e admiração...
morrera na semana passada.
Tere
Penhabe
Itanhaém,
15/11/2003
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