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S.D.A.D.I.A. ... ou seria paixão? de
Tere Penhabe
Eu acordei decidida a
mudar de vida... Começaria por aquele retrato na parede, porque ele tem me
incomodado sobremaneira. Aqueles olhos sempre sorridentes, não me deixam ver
que há muito não me sorriem mais, não falam nada, não marcam presença. Sumiram
do "pedaço", como diria a garotada. "Desce daí moço, vais para o cesto
arquivo!" ... Foi o que pensei, mas nesse momento invadiu-me a memória,
lembranças da última vez que eu presenciei esse olhar e sorriso. Ah! E como
foi bom! Peguei o álbum de fotos e fiquei a folhear... Era tão excitante
partilhar da sua timidez, naquele misto de magia e expectativa. Eu sempre
gostei de homens tímidos, são mais intensos. Como se em vez de gastarem suas
energias levianamente, elas ficassem todas à disposição da corajosa que
conseguisse arrancá-las à força. Eu tinha também alguns bilhetes... onde
estavam mesmo? Perdi mais ou menos meia hora tentando achá-los, e ao ler o
primeiro, já senti que ia ser difícil despachar o moço, sem um bom
macumbeiro. Ah! Como ele me encantava com os seus bilhetes! Às vezes era
sisudo demais, quase frio... mas outras vezes, simplesmente cativante! E
sempre que chegava algum, eu ia pra cama sonhando com anjos que tocavam harpa
para mim, nas portas de marfim do sétimo céu. "Sétimo Céu" era o nome de uma
revista do meu tempo, e eu sempre me perguntara qual seria o significado da
expressão... agora eu sabia: sétimo céu era a pós-leitura de algum bilhete
daquele amor bandido que chegara na minha vida, além de atrasado, mal
resolvido... - Céus! Eu preciso comer alguma coisa... (descobri em
tempo.) Parei para preparar um lanche, e sentei-me à mesa rodeada de fotos e
bilhetes do desalmado. Em alguns momentos, ajudava na digestão, quando a alma
dançava valsa lembrando alguma passagem boa e o estômago acompanhava o
rítmo. Em outros , virava um verdadeiro "rock pauleira" , com aquele
estridente e teimoso: tibum tibum tibum, ao lembrar do seu descaso com os meus
telefonemas, telegramas, e-mails... - Eu preciso mudar de vida, sim! Mas
hoje não vai dar pra ser... concluí. E concluí mais... Cinco da tarde! Céus!
O que eu fiz o dia inteiro? Aquele sorriso idiota continua lá na parede, como
a zombar, impertinente, da minha falta de coragem... ou seria organização? No
corredor, a escada e caixas de álbuns e lembranças, tanta coisa espalhada...
assim não é possível! Será que eu ainda estou apaixonada? Ou simplesmente
acometida do mal de S.D.A.D.I.A., uma novidade da medicina que uma amiga me
apresentou hoje? Aliás, uma amiga que eu sempre pensei que tinha uns quarenta
e cinco e hoje me disse que tem oitenta e dois anos... magias da
internet! Pois é... S.D.A.D.I.A. "Síndrome de Desordem da Atenção Deficitária
na Idade Avançada"... hummmmmmmmm parece imponente! Até vou oferecer esta
crônica displicente a essa minha amiga do coração. Não posso dizer o nome
dela, porque apesar dos homens acharem as mulheres muito complicadas, é pura
falta de competência. Porque mulher é a ciência mais exata que existe no mundo,
de transparência e coerência infindas. Nesse caso por exemplo, existem
unicamente duas alternativas para agradar uma mulher: - Você escolhe entre
dizer o nome ou a idade. As duas coisas juntas, jamais! Causaria pane
sentimental e psicológica, desencadeando carência afetiva. Simples
assim... Mas mesmo que S.D.A.D.I.A soe com certa imponência... pensando bem,
eu ainda prefiro a paixão! E em qualquer caso, radicalizar é sempre
recomendável porque o tempo urge. Mas amanhã eu decido, afinal, mudar de vida
é como regime: sempre pode ficar pra segunda-feira...
Tere
Penhabe Santos, 25/10/2008

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