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 de
Tere Penhabe
Eu não tenho inimigos. Esta é uma afirmação que me provoca
reflexões e muitas dúvidas. Durante muitos anos eu afirmei isso, depois,
relembrando o passado, momentos vividos ou assistidos, concluí que tal afirmação
é perigosa demais, porque quase sempre é falsa. Nós não sabemos que temos
inimigos, mas temos. Amigos a gente conquista, cativa, atrai... inimigos a
gente os consegue à revelia.
A primeira vez que eu me preocupei com essa palavra - inimigo - eu
tinha uns cinco ou seis anos, não lembro exatamente, só me lembro que ainda não
estava frequentando a escola. O dia amanheceu lindo, abraçando a cidade com
os perfumes do outono, e ao acordar, ouvi o burburinho normal de todos os dias,
o que me fez pensar mais uma vez:- "O mundo não acabou..." Naquele tempo eu
morria de medo do mundo acabar. Minha mãe lera o livro de profecias do
Nostradamus, e vivia contando-nos passagens que lera, do tipo:- "A mil chegarás, de dois
mil não passarás..." etc... isso tirava meu
sono. Bom, naquele dia o mundo não acabara, mas estava em
polvorosa.
As vizinhas apoiavam seus cotovelos nos muros para trocarem
impressões sobre algo terrível que havia acontecido. Depois de algumas
tentativas frustradas, eu consegui captar a essência das alarmantes prosas:- "O
Onofre matou o Preguinho." Quem era Onofre?... Quem era Preguinho?... Foi
mais uma labuta esfolando-me aqui e ali, para descobrir isso também, mas acabei
satisfazendo a minha curiosidade infantil e temerosa, diga-se de
passagem. Ambos eram "bicheiros", bancavam o jogo do bicho, e eram inimigos
de morte. Inimigos de morte? Mas que diabo havia de ser isso? Mesmo sem
saber, pelos olhares sombrios, eu desejei ardentemente que nunca na vida viesse
a ter um inimigo de morte. Eu ainda não sabia direito o que era, mas com
certeza não era algo bom de se ter.
E então as vizinhas decidiram que iriam ver de perto o
acontecido... ao menor esboço de me deixarem para trás, abri a boca a chorar de
tal maneira, que não teve outro jeito senão me levarem, aliás, eu e mais umas
quatro crianças da vizinhança. E lá fomos nós! Pelo menos as crianças, eu
creio que estavam todas tão curiosas quanto eu, para descobrirem o que era a
morte... era a primeira vez que eu ia vê-la de perto...
E o Preguinho estava estendido na calçada... era um negro alto,
forte, bonito... aquele semblante sereno, de olhos fechados, me pareceu
angelical... no peito, do lado esquerdo, uma mancha de sangue que havia
escorrido por um furo no paletó do terno bem cortado, de linho branco... algum
sangue apenas, formando uma mancha bonita, como se tivesse sido pintada por
algum mestre das telas naquele peito imóvel... pouca coisa, mas o suficiente
para matá-lo. A gola engomada e impecável da camisa azul-claro parecia estar
acariciando de leve seu pescoço... os pés calçados em elegantes sapatos de
verniz preto, com detalhes em branco no peito do pé... meias brancas... eu
juraria que vi ele se mexer levemente para ajeitar os pés que haviam ficado
suspensos no meio-fio... que homem elegante tinha sido o
Preguinho!
Eu odiei o Onofre. E olhando para aquele rosto impassível, eu
decidi: Onofre era meu inimigo! Mas não de morte, porque eu não queria morrer
como o Preguinho. O pior de tudo foi descobrir o motivo do assassinato!
Onofre matara o Preguinho por medo. Sim, numa de suas discussões por conta
das bancas de jogo, Preguinho havia jurado de morte, o branquelo Onofre, um
homem sardento, de cabelo ruivo aloirado, olhos azuis meio esbugalhados, mas com
nenhuma pinta de bandido... Aquele negro jamais teria matado uma mosca!
Diziam todos depois... E no entanto ao
ver Preguinho atravessar a rua, bem em frente da sua casa, Onofre apavorou-se
por medo de ter chegado a hora do acerto de contas prometido, puxou do revólver
e deu-lhe um tiro no coração... um só... Preguinho morreu na hora. Que coisa
besta, meu Deus! Como entender isso?
Uma criança que ainda achava que os bonzinhos e os bandidos viviam
separados, como nos filmes, cada um ocupando o lado que lhe
competia, do bem ou do mal, sem se atracarem por conta própria,
antes da prévia determinação do diretor... Eu vira uma vez num programa de TV: o
bandido só podia atirar, depois que alguém batia aquela plaqueta e outro alguém
gritava: GRAVANDO! Mas então... como podia ter acontecido isso? A confusão na
minha cabeça foi geral... e concluí que não sabia mais quem era meu inimigo, ou
por outra, os dois eram... E incontestavelmente, o bem e o mal andavam lado a
lado, às vezes de mãos dadas, e não raro, moravam dentro do mesmo peito. Ao
longo da vida, muitas vezes me esqueci desse aprendizado precioso, mas sempre
acabo me lembrando.
De lá para cá, vi muitas mortes, mas nenhuma praticada por
inimigos... Ou todas teriam sido praticadas por inimigos? Sim, porque o
assaltante que nos rouba a bolsa e que poderá atirar em nós se reagirmos, é
nosso inimigo... O colega de trabalho que inveja nosso cargo, é nosso
inimigo... O marido ou esposa, que sofre uma traição, ou acha que sofreu,
pode vir a ser um inimigo em potencial... O amigo possessivo que tem ciúmes
de nós em relação às outras amizades, pode nos ver como seu inimigo... O
marido ou esposa que desiste do casamento, sem que esse tenha sido o desejo do
parceiro, pode também torna-se um inimigo... O profissional que faz
propaganda do seu produto, de forma a denegrir o produto do seu concorrente, é
um inimigo... Seria infindável a relação de prováveis inimigos que temos, sem
sabermos. Porque inimigo não é apenas aquele que deseja nos matar. É aquele a
quem ousamos contrariar, que não partilhamos dos seus atos ou
intenções.
Alguns deles
morreremos sem saber sequer que existiram... Outros descobriremos por acaso. Mas
lembrem-se: o acaso não existe! Essa é uma crença minha, mas sei que é
partilhada por muitos. Então algum dia haveremos de entender toda essa
parafernália de inimigos pra lá e pra cá. Mas não tenho dúvidas de que todo
ser humano teve, tem ou terá, pelo menos um inimigo na vida. Mas jamais
pensemos em inimigo, (repito) como alguém que nos odeia terrivelmente e quer nos
ver mortos, ou vice-versa... Não, não é bem assim. Às vezes ele só deseja nos
dar uma mordida, puxar nossos cabelos ou nos passar uma rasteira. E se calhar,
pode até arrepender-se em seguida e vir nos socorrer. Mas não se fiem muito
nisso, porque mesmo quando parece amigo, é um inimigo...
Bem, eu afirmei veementemente numa outra mensagem, que amo meus
inimigos. Como houve mais de uma contestação, eu quero reafirmar o que disse,
porque não foram palavras levianas pois essa é uma responsabilidade que eu
procuro ter ao escrever. Foram ditadas pelo coração. E o meu coração tem muitos
defeitos, entre eles ser meio volúvel por ter sofrido muito e não ver sentido em
se prender a quem não o quer... além do mais está meio bichado, batendo na
banguela, mas hipócrita, ele não é não. Eu amo meus inimigos sim! E não estou
procurando-os, de jeito nenhum, mas estou certa de que os tenho. Quanto aos
inimigos da humanidade, como me citou alguém... a esses eu amo também,
pero no
mucho...
Tere
Penhabe Santos, 24/04/2009
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Midi:
Amigo do Sol, Amigo da Lua Compositores: Benito de Paula
e Márcio Brandão Intérprete: Benito de Paula
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